"O criador é aquele que faz avançar a história da moda" - Didier Grumbach

quarta-feira, 27 de junho de 2012


Entrevista com Glória Kalil




por RITA OLIVEIRA

* Entrevista com a consultora de moda e estilo  Gloria Kalil

1- A moda já lhe rendeu dois best-sellers. Por que você resolveu falar de etiqueta?

Gloria Kalil - A preocupação com a aparência tomou uma proporção exagerada. Agora estou dizendo aos leitores: "Chega de imagem, cuidem da sua segurança interna". Além disso, percebi que atrás de cada pergunta de moda há sempre uma questão maior: "Que ritual é esse para o qual eu não sei como me vestir?" Muito da insegurança vem da falta de informação e de convívio social. Hoje, a família nem se reúne mais em volta da mesa de jantar. Todo mundo corre demais, cada um tem um horário, esquenta o prato no microondas, come em frente da TV...


2- As crianças não têm com quem aprender?

Gloria - Não, porque era durante as refeições que os pais ensinavam o básico do comportamento e da ética. Naqueles momentos, diziam: "Senta direito, olha o cotovelo na mesa". Ou então: "Seu amigo dedurou um colega para o professor? Isso não se faz, é muito feio". O mundo mudou, a transmissão informal de conhecimento diminuiu e hoje reina a falsa impressão de que não existe regra alguma. Bobagem. Os códigos precisam ser revistos, o que não significa que é possível prescindir   deles.

3- A ideia de obedecer regulamentos assusta. Qual o motivo de tanta resistência?

Gloria - Isso acontece porque somos filhos e netos dos anos 60, a década que rompeu com valores machistas, preconceituosos. Porém, o fato de termos lutado contra o autoritarismo e a hipocrisia não quer dizer que agora vale tudo! Sem educação não há civilização. O problema é que as famílias modernas sentem-se desconfortáveis, pensando que educação é repressão... e é mesmo. O papel dos filhos é reclamar e achar os pais uns chatos. E o papel dos pais é serem chatos, ora! Cabe a eles repetir mil vezes, até que a criança aprenda, que não pode comer de boca aberta nem falar alto nem devorar toda a batata frita. Tem que dividir com os outros. Senão, quem chega na frente come a melhor parte - esse é o princípio da barbárie. Eu não tive filhos, mas certamente seria uma mãe insuportável... (Risos)

4- Qual é a principal regra da etiqueta moderna?

Gloria - Prestar atenção no outro. Quem só olha para o próprio umbigo não está apto a conviver. E atualmente isso é muito comum, o narcisismo virou um problema social.

5- Acaba interferindo também nos relacionamentos amorosos...

Gloria - O drama é que uma tribo não faz concessão a outra e aí os relacionamentos ficam difíceis. Está cheio de mulher que olha o cara e, se não gosta do sapato dele, não se dispõe a conhecê-lo... Para escrever o capítulo sobre casais, encomendei uma enquete à equipe do meu site. No resultado, ficou evidente um problema de código: mulher adora moda e homem tem horror ao estilo fashion. Isso gera curto-circuito na comunicação. Teve um cara que reclamou. Deu um vestido de presente para a namorada e ela estreou a peça com botinas e uma jaqueta de jeans rasgada. Ele considerou um ultraje.

6- O que aconselha para evitar desencontros desse tipo?

Gloria - Que a mulher não fique presa ao seu mundo. Se quer agradar a um homem, no mínimo precisa fazer um pouco de esforço para entender o universo dele e se comunicar.

7- Podemos tomar a iniciativa da conquista?

Gloria - Não! Muitas mulheres ficam chocadas quando digo isso, acham que é coisa do século passado. Mas eu insisto: está interessada nele? Então não o procure. Esse não é o momento de mostrar o quanto você é independente, e sim de observar o funcionamento dos códigos de sedução. O fato é que o homem continua gostando de conquistar e a mulher de ser conquistada. Se ela correr atrás dele, ele correrá dela.

8- Duas saias justas: o fim do namoro e o reencontro com o ex. Como lidar com elas?

Gloria - Qual é a melhor hora para quebrar a perna ou levar um fora? Isso é da vida, não há livro que resolva. Se for abandonada, não vá perseguir o sujeito nem encha a paciência dos outros contando mil vezes a sua história - melhor amargar sozinha. Separação é como gripe: tem um ciclo, dói, depois passa. Caso dê de cara com o ex e a nova namorada no restaurante, nada de fazer cena.

9- Hoje é comum uma mulher perguntar a outra se aplicou Botox, fez plástica... É de bom-tom?

Gloria - É péssimo! A plástica, sobretudo, devia ser abordada com o mesmo pudor dos assuntos ginecológicos. É íntimo demais, ninguém tem de ficar bisbilhotando. Claro que amigas trocam segredos e podem até ir juntas aplicar Botox... Mas como você se sentiria se uma conhecida qualquer perguntasse o preço do seu sapato, por que você engordou ou se fez preenchimento de rugas? Em geral, pessoas invasivas adoram falar dos seus tratamentos, mostrar o silicone. Aí, é o problema contrário, você fica naquela situação horrível: "Não, querida, eu não quero ver o seu peito..."

10- Num almoço, tudo bem se você atender o celular?

Gloria - Se estiver aguardando uma ligação urgente, melhor se desculpar com seu acompanhante, ser breve na conversa e desligar o aparelho assim que resolver a pendência. Outro dia, vi duas moças num restaurante - uma almoçou enquanto a outra ficou no celular o tempo todo. É o fim da picada, eu teria me levantado da mesa.

11- Como os fumantes devem se comportar para não perturbar nem ser perturbados pelos outros?

Gloria - A não ser que você more em Paris - onde todo mundo fuma em qualquer lugar e ninguém dá a mínima -, tem que pedir licença e perguntar se incomoda. E agir de acordo com a resposta, claro. Por outro lado, quando é você a anfitriã fóbica e recebe um amigo fumante, é possível, delicadamente, sugerir que ele acenda o cigarro na varanda. Mas, se for um convidado de muita cerimônia, desista. Abra as janelas e pronto.

12- Existem normas que ajudem a mulher a ficar segura em situações variadas?

Gloria - Sim, e também proibições (veja o quadro). Mas etiqueta não é um exercício de memória, não se trata de decorar regras, e sim de entender o espírito da coisa. A ideia é facilitar a vida e as relações, nada a ver com complicar ou esnobar.

13- Eventos especiais sempre trazem dúvidas. Qual o segredo para fazer bonito na festa?

Gloria - O fundamental é identificar o tipo de rito, o que é valorizado naquela situação. Suponha que o convite peça traje social completo e você decida ir de jeans. Se está convencida disso, tudo bem. Porém, se vestiu a roupa errada porque não entendeu o convite ou não prestou muita atenção nele, vai se sentir a última das criaturas e acabar perdendo a noite. A segurança aumenta à medida que você vai dominando as normas. Até para desobedecê-las, se preferir.

14- O que uma mulher precisa saber para receber bem?

Gloria - Que o bem-estar dos convidados é mais importante do que ter o copo certo. Também é bom lembrar que não se convida desafetos nem um casal recém-separado para uma recepção íntima (em festa grande pode, mas sempre é melhor avisá-los antes). A partir daí, existem mil possibilidades. É besteira se estressar porque quer fazer um fondue para um pequeno grupo de amigos e não tem o aparelho. Peça emprestado a uma amiga ou alugue. Aliás, outro amigo pode trazer aquele queijo ótimo, você serve as bebidas, a conversa engata e dá tudo certo. Não se esqueça de colocar flores na casa e vestir uma roupa bonita: é carinhoso demonstrar que se preparou para receber as pessoas. A situação muda em um jantar para 20 convidados. Nesse caso, é melhor contratar uma copeira ou um bufê com serviço completo do que ficar correndo de lá pra cá, mostrando que está tendo o maior trabalho. Aí você nem aproveita a festa nem atende seus convidados direito.

15- O problema é querer dar o passo maior que a perna?

Gloria - Não funciona alguém tentar aparentar o que não é - isso é pura exterioridade, enquanto a segurança é uma condição interna. Mas que ninguém se engane: a segurança depende de a gente se sentir aceita pelos nossos pares, as pessoas que valorizamos, sejam elas super tradicionais e cheias de cerimônia ou artistas informais. Você pode ser indiferente à opinião de um determinado grupo porque a sua turma é outra. Mas, se você se sente a tal em detrimento de todo mundo, não é segura coisa nenhuma, é louca. Nós precisamos da aprovação do outro e vice-versa, daí a necessidade de prestar atenção no ambiente, nas pessoas, roupas, conversas. Tudo ajuda você a entender melhor a situação e a ficar mais à vontade.

Ela diz que não pode! No Trabalho - Transformar sua mesa em um altar pessoal (fotos de família, latinhas coloridas, bichinhos). - Cara feia. - Abusar do uso de roupas em tons pastel: infantilizam e dão ar de fragilidade.

No Restaurante - Tentar furar a fila de espera. - Tirar os sapatos debaixo da mesa. - Utilizar as seguintes palavras e expressões que começam com d: dieta, doença, depressão, dureza, diretrizes políticas, doutrinas religiosas.

No Casamento Se você for madrinha ou convidada: - Usar preto no altar. - Competir com a noiva (vestido de cauda, decote até o umbigo etc.). Se Você for Noiva: - Fazer do seu noivo uma peça de decoração (o terno combinando com seu buquê, por exemplo).

No Relacionamento - Falar mal do ex. - Comentar numa roda idiossincrasias (roncos, hábito de ler no banheiro...). - Desmentir o parceiro em público. - Fazer voz de criança.

Fonte: Revista Cláudia